Encruzilhada

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terça-feira, 8 de outubro de 2013

Ornitorrinco - Escreva um poema por dia

Texto meu sobre o projeto 'Um poema por dia', publicado no ORNITORRINCO. Obrigado ao super Gabriel Pardal.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ESCREVA UM POEMA POR DIA



‘Escreva um poema por dia’, o fantasma lhe disse em sonho. Não fui eu quem sonhei; eu vi. Num filme, precisamente ‘HaHaHa’, do coreano Sang-soo Hong. A cena em que uma entidade aparece para um dos protagonistas e lhe diz que escreva um poema por dia (se bem me lembro, para conquistar o coração de uma mulher) ficou na minha cabeça naquele segundo dia de 2013 e, num ano que eu imaginava ser de grandes e profundas mudanças, tornou-se um lema e uma meta. 245 poemas depois (e contando...), o projeto segue de pé, tornado num diário lírico de um aspirante a artista, aprendiz andante e errante num, de fato, ano de profundas mudanças.

Em 2013 passei por uma operação no joelho que me custou seis meses de fisioterapia na moeda mais valiosa que pode existir: o tempo; pedi uma mulher amada em casamento e casei-me com ela alguns meses depois; deixei o trabalho de quase oito anos como jornalista e apresentador de TV para me aventurar num sonho de ser artista; e finalmente, pela primeira vez na vida, deixei de morar na cidade onde nasci e cresci para me mudar para, assim dita, ‘capital do mundo’. E ainda estamos em setembro...

Às vezes um acontecimento, uma pessoa ou um 
sentimento origina uma poesia inteira. Às vezes 
é uma imagem, uma referência, uma palavra ou 
um verso já completo que inicia todo o processo.

Ter os poemas por perto garante um alívio imediato a cada dúvida existencial do tipo ‘o que estou fazendo com o meu tempo’ e uma satisfação confortante e confortável de saber que, mesmo que nenhum dos outros planos desse certo em 2013, com os caderninhos rabiscados (estou indo para o terceiro moleskine) um grande projeto estaria concretizado. Como o ‘366 músicas’, que o nerd profissional Nick Ellis criou – e cumpriu – no ano passado, ao publicar a cada dia no youtube e no facebook um vídeo seu tocando e cantando uma música diferente. Ou como a ideia que a personagem de Miranda July desenvolve em seu novo filme, ‘O Futuro’, o projeto de fazer uma dança por dia.

O curioso é que, por um lado, o pacto interno de manter uma singela contribuição diária implica compulsoriamente numa maior intimidade com o artesanato da expressão em foco (no meu caso, a poesia), ao mesmo tempo em que provoca um desafio de não se repetir. Assim sendo, se percebo que pareço monotemático ou dependente de um único formato, mudo radicalmente de enfoque ou abordagem. Também por conta do ritmo de produção, me é oferecida a oportunidade de experimentar, mesclar e misturar expressões literárias. Há um poema que é um conto em si, outro que resume um conto concreto de minha autoria, também escrito neste ano, versos com cara de letra de música, poesias em formato de cantiga, tentativas de escritos em inglês, uma série de cantos e entre outras, muitas construções que, na prática, nada mais são do que crônicas líricas daquele meu dia (e alguns chegaram a virar vídeo, num esforço para ampliar as fronteiras midiáticas do projeto).

A experiência também me permite investigar, afinal, de onde vem – pelo menos no meu próprio processo criativo – essa tal inspiração. Às vezes um acontecimento, uma pessoa ou um sentimento origina uma poesia inteira. Às vezes é uma imagem, uma referência, uma palavra ou um verso já completo que inicia todo o processo. E às vezes é metalinguagem pura, viagem pura. Por vezes o resultado é surpreendente pra mim quando visto a certa distância: seja no dia ou no mês seguinte, perdi a conta de em quantas oportunidades me peguei lendo o que escrevi e pensando ‘até que isso ficou decente’ ou ‘como escrevi isso mesmo?’. É verdade também que, por vezes, o resultado deixa a desejar e soa como cumprir uma tabela, um dever. Mas sempre é trabalho. E lidando com o fazer poético, o pretenso poeta pode gozar de uma pura e primitiva liberdade ao se dar conta de que tem o poder de pegar o que quiser, adotar a forma que achar mais relevante, interessante ou provocante, e construir à sua própria maneira um verso, um poema. Afinal, adaptando uma canção de Marcelo Camelo, pergunto-me diariamente: quem se atreve a me dizer do que é feita a poesia?
Ornitorrinco - Escreva um poema por dia


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Um poema por dia - 02/10 - Inferno

02/10

Inferno

Círculos incertos no vazio
Larvas, insetos
No fim da escuridão;
Espera, faminto, o concreto macio
Gigante e sozinho
Anunciação.
Salvação.
Besta no cio
Em busca do feto
Saído daquela prisão;
Olhar fugidio
Vozes voam no teto
Rastejam pelo chão;
Vermelho, arrasta-se o rio
Leva a coroa e o cetro
A algum outro lugar de solidão.

domingo, 6 de outubro de 2013

Um poema por dia - 01/10 - De olhos pra cima e peito pra frente

01/10

De olhos pra cima e peito pra frente

Anoiteceu
E o céu ainda é claro
No banquete das luzes
Das aves de aço
No traço do tempo
Ao passo da lua;
Dos corpos que se jogam,
Cansaço;
Nos olhos que se escondem,
Trabalho;
Fases do dia
Corrida contínua
Preguiça ou fadiga
A hora ilumina.

sábado, 5 de outubro de 2013

Um poema por dia - 30/09 - Um lugar para sonhar

30/09

Um lugar para sonhar

Sorrateiro porém nobre
O sonho se infiltra
Reúne-se em passos
Por ruas cinzentas 
Barulhentas
O impulso de viver essa outra vida
Pedaço por pedaço
Batida por batida
Ergue-se a ponte
No caminhar
Embaçado o horizonte
Neste novo lugar.
A nova York,
Que grande cidade para se sonhar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um poema por dia - 29/09 - O espelho do mundo real

29/09

O espelho do mundo real

Haverá beleza na natureza?
In natura
Será pura
Nua
O que há, o que existe
É.
Por si mesmo
Não por dito
Escrito
Vendido
Mas por simplesmente existir
Mais que lindo
Mais que um ser belo
Belo é ser.

Um poema por dia - 28/09 - "Índio, caboclo, cafuzo, criolo"

28/09

"Índio, caboclo, cafuzo, criolo"

De um coração inflado de sangue
Pulsa e jorra a força dos nativos
Do sul
Pais do tempo
Órfãos da História
Espíritos de ébano
Vários em tons
Ricos em sons
Tragam-me o canto da floresta!
Os deuses da água!
A vida que respira rasteira
Em harmonia com a casa
Tragam-me a beleza difusa
Dos amores humanos da noite!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Um poema por dia - 27/09 - A terra além do penhasco

27/09

A terra além do penhasco

Acima dos montes verdes
ao fim da noite
posso ver você
me chamando
me estendendo a mão;

Há um lugar, além do olhar
de sol nascente, brilhante
sorridente
crescente sobre mar e areia branca;

Deixo sua voz me guiar
obrigado;
e posso ver, posso estar
neste lugar,
a coisa mais bonita que já vi;

E lá estão vocês
num tempo parado
silencioso;
E lá estão vocês
me convidando pr'um abraço;

De pés descalços, flutuo
braços abertos
carregado de amor
cheio
inteiro
não mais distante;
lá estou eu
sendo o bastante;

E lá está você
trazendo pela mão
o perdão
dizendo que está tudo bem;

Meu próprio paraíso
livre de penar ou juízo,
meu abrigo aberto
vasto, completo
de erros, conquistas
e dores.
E amores. Todos amores.

E você, num vestido vermelho
do beijo, o nosso primeiro;
E você me leva além
e além, adiante
para ser o bastante, o bastante;

E vocês me abraçam, me tocam
e os corpos unidos nos completam
nos confortam
e há amor;

Vocês, meus amores,
dois amores
não há mais temores;

Estou aqui
e estamos todos.
Tudo que se queria ser
aqui
Todos. Nós.
Amado, completo
repleto
realizado;

Além da montanha,
além do penhasco
e eu estou com vocês.