Com Pedro Cardoso na linha de frente interpretando de Prudente de Morais a Antonio Conselheiro, Furtado relembra, basicamente usando encenações em estúdio, o massacre de Canudos, tendo como fio condutor a chegada de uma máquina de matar a ser usada pelo exército contra o povo.
Furtado encaixa uma pertinente crítica e reflexão ao misturar reconstituição em estúdio com o que parecem ser registros reais de crianças mortas violentamente por agentes do estado (policiais) na atualidade.
- Ângelo anda sumido (1997) –
Totalmente investido na narrativa fictícia, Furtado dirige enquanto divide o roteiro com Rosângela Cortinhas, criando uma história com as dificuldades práticas no reencontro de dois amigos de faculdade numa noite.
Parte 1
Parte 2
- O sanduíche (2000) -
Mais uma vez num estudo de ficção (ao menos até os minutos finais), Furtado escreve um de seus diálogos espertos e dirige uma interessante encenação entre um homem e uma mulher, trabalhando com muita quebra de expectativas e metalinguagem.
* Tentei e tentei, mas não consegui encontrar Rummikub (2007), o trabalho mais recente de Jorge Furtado nos curtas-metragens.
Vadiando pelo youtube, descobri que quase todos os curtas de Jorge Furtado estão disponíveis. Decidi então reunir tudo em dois posts. - Temporal (1984) -
Baseado numa história de Luis Fernando Veríssimo (‘Temporal na Duque’, não consegui encontrar pra postar aqui), este é o primeiro curta de Jorge Furtado, assinando a direção ao lado de João Pedro Goulart.
Lambuzado de surrealismo, encena a confusão que toma conta de uma casa de família quando, numa mesma noite de chuva torrencial, um pai promove uma reunião de seu grupo fanático cristão enquanto as filhas promovem uma festa à fantasia mucho loca.
- O dia em que Dorival encarou o guarda (1986) –
Tão antigo quanto eu, esta pérola também tem créditos de
direção divididos entre Furtado e João Pedro Goulart e um potencial pop ainda a
ser descoberto pelo grande público (‘Milico e merda pra mim é a mesma coisa!!’).
Apoiado numa presença de cena fantástica do tufão João
Acaiabe (Dorival) e num excelente trabalho de direção de atores, este curta
aborda racismo em uma de suas camadas e ridiculariza o sistema hierárquico do
exército, além de trazer os indícios da singular linguagem cinematográfica de
colagem feita por Furtado.
A história mostra a luta de um preso para conseguir tomar um
banho na cadeia militar. O argumento é do livro de Tabajara Ruas, ‘O amor de
Pedro por João’.
- Barbosa (1988) –
Estrelado por Antonio Fagundes, ‘Barbosa’ mostra como
Furtado conjuga cultura brasileira, cultura pop e estilo cinematográfico para
criar uma peça popular e autoral.
Aqui dividindo a direção com Ana Luiza Azevedo, Furtado se
baseia no livro ‘Anatomia de uma memória’, de Paulo Perdigão, para contar a
história de um homem que volta no tempo para tentar impedir a derrota do Brasil
para o Uruguai na Copa de 50.
- Ilha das Flores (1989) –
Uma obra-prima.
Este filme, escrito e dirigido por Furtado, é um misto de
registro documental, narrativa encenada, análise do sistema capitalista e da
sociedade de consumo.
Sem qualquer indício de pieguice, Jorge Furtado conclui seu
filme de maneira contundente, reforçando sua reflexão acima de tudo, sobre o
modo como vivemos e as relações econômicas mais simples estabelecidas entre os
seres humanos.
Revolucionário em sua linguagem de colagem (uma ferramenta dinâmica
e atual), este é um dos mais importantes capítulos da história do cinema
brasileiro.
Narrado por Paulo José.
Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 1990.
- Esta não é a sua vida (1991) –
Furtado aprofunda o lado documentário do seu formato, e
parece se mesclar ao estilo de Eduardo Coutinho em sua abordagem de uma história de gente de verdade escolhida ao acaso para ser contada.
Tudo sem deixar de lado a sua própria autoralidade e a
análise (e reflexão) sobre o modo que vivemos, algo dinâmico, algo fragmentado.
Narrado por José Mayer, escrito e dirigido por Jorge
Furtado.
- Veja bem (1994) –
Experimentando mais com a linguagem de colagem Furtado cria um
roteiro inspirado na poética de dois monstros da literatura brasileira: Carlos
Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
Mais livre do registro ou do documento, Furtado dirige esta
peça dividida em duas partes: o lado de fora e o lado de dentro, notados como
talvez a percepção e a experiência, com um tecnicismo direto e pragmático na
primeira parte (o texto ‘Jornal de Serviço’, de Drummond) e uma lírica reflexão
na segunda (‘Os Três Mal-Amados’, de João).
Pensei que pudesse existir neste momento sem medir o sentimento ou impedir um tormento de cada vez de me chegarem aos ouvidos os lamentos e ruídos mais rugidos de outros tempos e feridos e sedentos por latidos barulhentos na carne do labor que me governa em terra vaga e tenra saga de vagar como correr por ter o que acontecer atrás de si ou algo além deste lugar em que nascer é condenar o curso de escolher mais simples como pagar a herança violenta de alguém que atrás da porta se apresenta o senhor deste penar com a dor no olhar apagado por seus anos mal-tratados planos frágeis fugidios por tão ágeis em lhe escapar às mãos enquanto finge são olhar o por do sol no chão e sorrir em vão por este lado do mundo o peito sangrado num segundo e o animal imundo escorraçado e recolhido então à sombra eterna de um adeus senão.
A bruta força Esta noite sonhei que corria Contra o vento, o tempo e tudo Sonhei que sonhava com ninfas Espíritos livres do mundo Deidades numa luta trançada ao redor de mim Caminhando pelas paredes do meu quarto Numa brincadeira entre si, correndo de um lado para o outro Sonhei que dançava até perder as pernas de tão gastas Até que o teto desabasse sobre a minha cabeça E eu ria E dançava, dançava até morrer Sonhei com mulheres brincando de serem meninas Rio em noite azul de lua cheia Noite cheia Noite bela Num jogo de água e espelho Brincadeira infantil Seduzir com batom vermelho Um carinho no rosto De um amor desconhecido E eu me jogava e mergulhava e caminhava E a água me seguia Numa dança impossível Como se fosse eu seu guia E eu via A dança do fim do dia E chovia Sonhei que voava Saltava de um penhasco E voava Rompia paredes E caminhava Contra o vento, contra o tempo, contra tudo E não estava só Sonhei com a luta de um homem Seu drama A força bruta da luta humana E de tão lindo, tão lindo Não sei se o sonho era sonho Ou se era vida. 14/10 Dormir não mais Fantasmas da noite morta Caminham entre luz e sombra E névoa Por rastros de cobiça e treva Lânguidos, lúgubres Embebidos no sangue de uma casa Entre árvores que andam Espíritos que dançam A noite de ontem E repetem seus caminhos E refazem seus destinos Passo a passo no terror Escravos das horas de sempre Da negra madrugada rubra De novo e de novo Despertos de loucura Em torno da figura Morta Atrás da porta Jaz o segredo do silêncio Confinadas lá dentro Almas de outro tempo Seduzem As testemunhas de hoje E o ar se vai, o som se vai A cama se desfaz; Nem querer, nem sonhar, nem dormir Dormir não mais.
22/10 O dia em que você me disse não Suas palavras andam num trilho Um trem que vem na minha direção Sem aviso viram dedo no gatilho De uma bala é feita minha escuridão Enquanto meu ser, roubado de vida Derrete derramado pelo chão A carne aberta, ferida Ainda tem a marca da tua sua mão O espaço que abriu no peito morto Tão quando me arrancou o coração As marcas que deixou pelo meu corpo No dia em que você me disse não.
30/10 A dança do fim da noite De dentro das sombras do fim de um sonho Espero por um trem Que me leve em suas luzes Cruzes deixadas pra trás Danças e sinais Caminhando e caindo No escuro Enxergando de longe O futuro Ruas destruídas Pelas batidas do som Sentidas no peito Paredes em ruínas, teto incinerado E todos nós, lado a lado Dançando no fogo, na água, na luz Até o fim da noite.
07/11
A invenção do amor para Karin Amor é egoísta invenção E onde estaria eu sem o meu? No chão Caído coração Perdido Em queda num abismo escuridão Meu amor me resgatou Me amou Me traçou nova vida Me levou em seguida E ainda enquanto procuro um lugar Ou se penso então em quem vou ser Sei que perto de ti será Quero alguém que seja com você Não aumento, não afago Amor é invenção egoísta. Mas como contigo Com esse amor ao meu lado Nunca soube como é ser tão amado.
12/12 vida viaja uma viagem de vida ou uma vida viagem; retrato da eterna despedida canto de uma sempre paisagem viver em passagem nesta história concebida; à beira, beirando a margem a viagem de uma vida numa vida que é viagem.
18/12 Canto da beira da estrada Gatos roubados Na beira da estrada numerada Pés cansados; De cima da calçada Vê-se o mundo Passar Derreter diante do olhar Com velhas cicatrizes Queimando Lembrando outro lugar Sangrando o velho sonhar; A ponta da sola do pé em frangalhos Caminhar, caminhar, caminhar 19/12 Seguir Sigo sol Contigo, sigo rei Rendido Ao tempo que fora da lei Ruindo por entre pedras de sal Tão frágil que nem sei Pra onde vou; Sigo farol Comigo e contigo Bem-vindo no beijo o refrão Unido e bandido da fé Sentido e deitado no chão Meu amor, Quanta dor, quanta cor, que visão.
meu querer Queria ser cantor Violeiro Falar a língua da música Queria ser craque de futebol Por um dia Driblar e botar a bola onde quisesse Queria ser astronauta Descobridor do espaço Ver o mundo de fora Queria ser professor Mestre Vivendo de ensinar Queria ser malandro Gingando Papo com lábia e samba no pé Queria ser boêmio Aceso na madrugada Jogado e perdido na mesa do bar Queria ser mulher Seduzir e sentir o poder De aceitar te beijar Queria ser mãe Carregá-lo dentro de mim O maior criar Queria ser peixe e nadar Queria ser ave e voar Queria cachorro e latir Queria cavalo e correr Queria ser ídolo Amor de desconhecido Amado, invejado, querido Queria ser tudo E sou nada Rabisco ou água passada Pedra rolada Sou lamento Pensamento Não sou você Sou apenas querer.
31/12 Canto Último o poeta corre o homem dorme. e pra que poesia? uma por dia por um dia todos os dias a alegria de ser criador escritor de si mesmo em versos modestos e pretensos intensos versos imensos do tamanho que quiseres; abraços da liberdade da palavra poesia para viver dia a dia pintar e escrever a fantasia e lembrar, e dizer a melodia dos verbos dos nomes dos fatos retratos dos dias desta vida das vidas deste ano cantos da madrugada solitárias noites passadas esperançoso futuro luminoso além deste muro; o salto o voo a arte a poesia do fim do dia. o homem corre o poeta agora dorme.