Encruzilhada

Encruzilhada

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um poema por dia - 04/03 - O beijo

04/03

O beijo

Há pouco tinham se visto
Uma única vez, numa noite de verão
Ele com outra, ela também
Jantares, olhares, por entre o salão

Logo mais, mais hora depois
Nos fundos, as mãos ele lavava
Ergueu os olhos, se viu a dois
Olhou pra ela, ela ali estava

Chegaram perto, se aproximaram
Olhar com olhar, não se falaram
Coração entregue, acelerado
E o tempo, por um instante, parado

Ele caminha, ela se chega
Num passo, num véu de delicadeza
Olhos fechados, distância nenhuma
Lábios nos lábios e a boca, uma

Um beijo, a fantasia, naquele curto segundo
Um beijo, isolados, sozinhos no mundo
Respiro ofegante, força diletante
Um beijo desfeito, perfeito, relance de amante

Olhos abertos, de volta pra Terra
Corpos de soltam, retorna a razão
O mais breve caso de amor se encerra
Um beijo deixado numa noite de verão.



quarta-feira, 6 de março de 2013

Um poema por dia - 03/03 - Jangada, jangadeiro

03/03

Jangada, jangadeiro

Jangadeiro, jangadeiro
Jangadeiro só;

Jangadeiro, jangadeiro
Debaixo do sol;

Jangadeiro, jangadeiro
Desfaz vela em nó;

Jangadeiro, jangadeiro
Segue no farol.

terça-feira, 5 de março de 2013

Um poema por dia - 02/03 - Nada aos pedaços

02/03

Nada aos pedaços

Chuva vem me acolher em seus braços
Envolve e me reúne aos pedaços
No encontro de rio com mar
É com um sopro pelo ar
Que me chega o vento
Trazendo notícias do tempo
Grãos brancos de esquecimento
Vem pra enterrar tudo que fizemos
Arauto de lembrar de onde viemos
E o que somos
Alguns poucos tomos
Lidos em um segundo resoluto
Nota de pé na história disso tudo.

Filmes e Memorabilia 2013 - O amante da rainha


53. O amante da rainha – 20/02 – cinema


Se fosse feito nos Estados Unidos, ‘O amante da rainha’ seria um dramalhão de época. Passado na Dinamarca e falado em inglês. Como o filme que enfoca a união de uma inglesa com o rei dinamarquês na derrocada dos regimes absolutistas europeus é uma co-produção Dinamarca/Sueca/Rep.Tcheca, temos uma superprodução refinada, porém, mais interessante do que a grande maioria dos filmes ‘históricos’ feitos por Hollywood. E falado na língua local. ;)

Se fosse americano, o filme provavelmente traria um romance açucarado em primeiro plano e a instabilidade política como pano de fundo. Aqui, o romance não é açucarado, é ‘pé no chão’. Vemos os acontecimentos se desenvolverem sob o ponto de vista de Carolina (Alicia Vikander), a ‘mocinha’, progressista, leitura dos iluministas e ansiosa por mudanças; o ‘mocinho’ Friedrich Struensee (Madds Mikkelsen, sempre bom encontrá-lo) tem seus ideais, mas é pragmático. O que quero dizer é: em ‘O amante da rainha’, menos é mais. Tons menos exagerados contribuem para a construção de uma experiência mais honesta, humana e real.

Se estivéssemos falando de uma produção hollywoodiana, certamente questionaríamos um provável tom caricato dado ao rei Christian. Como não é o caso, resta-nos louvar a interpretação de Mikkel Boe Følsgaard e sua aposta em um tipo que poderia facilmente ser abordado de forma unidimensional, mas que se revela complexo, com uma infantilidade e um certo tom de melancolia que faz com que lamentemos por sua situação. Merece aplausos pela performance.

Não à toa, o ator recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim do ano passado, onde o filme ainda saiu premiado com o Urso de Prata de Roteiro para Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg.

MEMO: REVELAÇÕES DO ENREDO! – Friedrich realizando que não foi perdoado e que está, na verdade, a caminho da forca.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Um poema por dia - 01/03 - Na rede

01/03

na rede

Chega com jeito mansinho, me leva
Me pega no leve balanço à beira-mar
Me entrega ao mundo por trás da minha janela
Carregado no sono, me bota noutro lugar

Com cheiro de sal, som de ressaca
Me transfaz em índio ao relento
Debaixo do céu nublado, em meio à mata
Sou conquistador de estrelas enquanto amigo do vento.

Comentário - Translunar Paradise - Só até 9/03!


Translunar Paradise
Tempo de Duração: 70 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
Direção: George Mann
Dramaturgia: George Mann
Elenco: Kim Heron, George Mann, Deborah Pugh

Até 9 mar 2013
dom, qua, qui e sex 19:00 (sáb 18h e 20h30) 

Fica em cartaz apenas até dia 9 de março, no CCBB o espetáculo Translunar Paradise. Montagem do grupo londrino Theatre Ad Infinitum, a peça rodou festivais europeus e chega ao Brasil comovendo sem palavras.

Em cena, a história de um homem lidando com a perda de sua companheira de toda vida. Para a encenação, George Mann (também autor e diretor do espetáculo) e Deborah Pugh misturam mímica com ballet e teatro mudo, com um que ainda de teatro de máscaras por conta da representação escolhida para os personagens enquanto idosos. Tudo ao som da bela música quase minimalista de Kim Heron, toda vestida de preto, usando apenas o acordeão e voz para suas interferências musicais e cênicas.

Abdicando de palavras na busca por retratar o que não pode ser dito, ‘Translunar Paradise’ conta uma história de amor comum, que pode evocar sentimentos de familiaridade em diversas plateias ocidentais. George e Deborah quase literalmente se transformam em cena, dando uma aula de expressão corporal e exibindo um domínio técnico estupendo de interpretação, gesto, movimento e presença de cena.

A crítica Barbara Heliodora escreveu que a linguagem escolhida pelo grupo não dá conta de encenar a história contada. “A mímica tem limites e não serve realmente para informar se estamos vendo lembranças da mocidade ou as tais figuras de um paraíso de fantasias de que fala o programa”. Eu simplesmente me pergunto: e realmente importa saber o que estamos vendo? Se fantasias de um homem que sofre a falta da amada que se foi ou se um paraíso de lembranças de outros tempos? Não poderias ser a mesma coisa as fantasias e as lembranças? Afinal, onde ficam guardadas as memórias senão no próprio corpo, aí incluídos mente, coração e alma?

Se você me perguntar eu digo corra para o teatro. Este é um espetáculo delicado, sensível, emocionante. E lindo.

Bem-vindo ao Clube

Dois meses do ano e o projeto 'Um poema por dia' segue totalmente de pé. Até aqui, já são 63 poemas, escritos diariamente, 59 deles já publicados no blog. É possível acessar todos através das postagens mais antigas ou, pra simplificar, através das páginas que reúnem todos os poemas de cada mês.

Poemas de janeiro

Poemas de fevereiro

Especialmente graças a um joelho operado, em dois meses de 2013 já se foram 58 filmes, entre repetecos e inéditos de cinema, dvd, TV ou internet. Destes, 53 já estão publicados aqui na sessão Filmes e Memorabilia 2013.

Além dos filmes, já se foram três peças, dois livros e duas exposições em 2013. Links dos comentários abaixo. Em breve, os comentários das peças e da exposição Movie-se, sobre animação, no CCBB.

Exposição 'Willian Kentridge: fortuna' no IMS

Livro 'Neuromancer', de William Gibson

Peça 'Calabar - O elogio da traição', de Chico Buarque e Ruy Guerra

Há ainda  os comentários sobre os discos Babylon By Gus, de Black Alien e Channel Orange, de Frank Ocean.

E em pouco mais de um mês de existência, 'Bem-vindo ao Clube' já contabiliza mais de 2600 acessos.

Obrigado a todos os amigos leitores que só estimulam ainda mais a continuidade destes escritos.