Encruzilhada

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domingo, 3 de março de 2013

Filmes e Memorabilia 2013 - Inimigos Públicos

48. Inimigos Públicos – 12/02 – TV – repetido

Dando prosseguimento aos seus retratos policiais (Fogo contra Fogo, Miami Vice, Colateral), Michael Mann vai para os anos 30 mantendo sua câmera digital e sua abordagem realista para focar em John Dillinger (Johnny Depp), um dos bandidos mais célebres da época, vítima de uma caçada do então em desenvolvimento FBI.

Contido, Depp é o grande centro do filme - e tem muitos méritos por isso. E Por mais presença que Christian Bale tenha, é covardia colocar lado a lado no quesito ‘carisma’ o seu personagem e o de Johnny. Assim, Melvin Purvis é um perseguidor determinado, mas contenta-se com o posto de coadjuvante para o brilho de Dillinger.

Contando ainda com Marion Cottillard (que atriz! sempre uma ótima presença no cinema), Jason Clarke, Billy Crudup, Stephen Dorff e uma ponta de Channing Tatum, ‘Inimigos Públicos’ procura uma quase neutralidade/fidelidade documental no registro da caça aos gangsters, com uma ótima reconstituição de época e sem tentar glamourizar ou emitir julgamentos sobre ações dos ladrões e do seu protagonista, criando assim, seja no núcleo dos bandidos ou no dos federais, personagens mais humanos, complexos e reais do que costumamos ver.


É um ‘filme de ganster’ seco, um retrato de Dillinger, personagem temido, procurado, mas também quase idolatrado em sua própria condição de ladrão de bancos em uma época em que os EUA sofriam consequências de um colapso financeiro.

Não à toa, a única cena de todo o filme em câmera lenta, com um tratamento mais pesado, é a da derrocada de Dillinger. Filmaço.

MEMO: Além da cena em que Dillinger sorri enquanto assiste a um filme de gangster sem saber que o FBI o espera do lado de fora do cinema, vale o destaque para a sequência de tiroteio em Little Bohemia.

Filmes e Memorabilia 2013 - O homem que não estava lá


47. O homem que não estava lá – 11/02 - TV


Ao mesmo tempo homenagem e um rico exercício de estilo da narrativa noir, ‘O homem que não estava lá’, escrito e dirigido pelos irmãos Cohen, parece ter saído direto dos anos cinquenta, com enquadramentos elegantes, fotografia em preto e branco deslumbrante de Roger Deakins e um elenco soberbo.

Frances McDormand, James Gandolfini, Scarlett Johansson, Richard Jenkins, Tony Shaloub e, carregando o filme como o onipresente protagonista, Billy Bob Thornton, que faz muita falta quando deixa de atuar em produções do seu calibre dramático.

Não se restringindo ao suspense criminal, a obra vai muito mais longe ao flertar com a filosofia e apresentar um estudo de personagem sobre um homem completamente dominado - e condenado – pela apatia da vida cotidiana americana de uma pequena cidade no pós-guerra.

Uma jóia que atesta mais uma vez a qualidade artística dos irmãos Cohen, resistência artística americana em Hollywood.

MEMO: Três cenas em especial me saltaram à mente: a conversa decisiva entre Big Dave (Gandolfini) e Ed Crane (Thornton); o fabuloso discurso do advogado Freddy Riedenschneider (Shaloub) sobre o Princípio da Indeterminação de Heisenberg; e a sequência perto do fim, com o passeio de Ed Crane no presídio.

Um poema por dia - 26/2 - Roberto, meu pai

26/2

Roberto, meu pai

2013, 26 de fevereiro
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Apanho um papel, faço uma poesia
Escrevo e dedico ao homem da calmaria

'De onde vem a calma', cantava a canção
Qual sangue, qual cabeça; ela vem do coração
Sobra generosidade no homem de pouco
Costas largas, peito aberto, touro

Camisa dez, com a bola nos pés
Ou na TV, vendo o Botafogo perder
Operário da família, viajante
Brasileiro, cavaleiro andante

Segundo entre cinco, pai de três pois
Marido de uma mulher, nascido há sessenta e dois
Devoto de nosso senhor
Pai de beijo, abraço e amor

Me fizeste um poema quando eu nasci
Te escrevo um poema, feliz que estás aqui.

sábado, 2 de março de 2013

Um poema por dia - 25/2 - Pequenos versos do dia

25/2

Pequenos versos do dia

Cai o mundo lá fora, chuva forte, barulhenta
Chega-me aos ouvidos, como cachoeira violenta;

Vejo uma menina,
toca os muros da rua com a mão ao caminhar
É minha própria imagem de quando criança,
fazendo o mesmo a caminho de nadar;

Logo ali está o homem de chapéu
Sorri com vontade, olha pro céu
Me faz pensar em escrever sobre ele
Um homem, de pé, numa rua, de chapéu;

Penso em frações, escrevo versões
Não desenvolvo qualquer uma
Relances de um dia, ficções
Pedaços de vida nenhuma.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Um poema por dia - 24/2 - O poeta e a rainha

24/2

O poeta e a rainha

Escrevo a vida a dois
E deixo pra depois
Tudo que puder ser

Escrevo pois
Em linhas boto que sois
O que não encontro no saber

Sua inconstância, seu mistério
Seu poder de surpreender
O semblante fechado, sério
A postura de uma dama do poder

Do poder de si, ti
Mulher rainha que se vê na vida
E ainda para pra sorrir
Mulher menina amante mais querida.

Comentário sobre Channel Orange, de Frank Ocean

A primeira vez que ouvi falar de Frank Ocean foi na colaboração com Kanye West e Jay Z em ‘No Church in the Wild’, do disco ‘Watch the Throne’. Depois, fiquei sabendo (muito por alto) de Ocean saindo do armário. Acompanhei conforme seu disco (o primeiro por uma gravadora, depois de ‘Nostalgia, Ultra’, lançado de forma independente), ‘Channel Orange’, aparecia na lista de melhores de 2012 e, por fim, acompanhei o próprio artista em uma apresentação no Grammy, sua noite de consagração na indústria.


Essa introdução é para dizer que finalmente parei para ouvir ‘Channel Orange’. E fiquei viciado. Acordo com ‘Forrest Gump’ na cabeça; sinto ‘Lost’ como uma convocação a dançar; lamento junto com o cantor a intolerância em ‘Bad Religion’; chego a ouvir algumas músicas em looping. O fascínio se dá, especialmente, pelo clima melancólico que Ocean traz para o R&B. Não é simplesmente hip hop. É soul com um eletrônico minimalista, influências de jazz-funk, um tom psicodélico e minha nova paixão, o dubstep, numa criação homogênea em estilo e personalidade, apesar do passeio por ritmos e climas.

Há firulas. ‘Start’, ‘Fertilizer’, ‘Not Just Money’, ‘White’ (com John Mayer) e ‘End’, não me dizem absolutamente nada. Mas as outras 12 faixas compensam a “sobra” estilística. Entre as dançantes, além de ‘Lost’, há as batidas ‘Crack Rock’ e ‘Sweet  Life’ e o hip hop eletrônico ‘Pyramids’. Faixas soul um pouco menos aceleradas, mas ainda boas para pistas e agitos, há ‘Golden Girl’, ‘Super Rich Kids’, ‘Pilot Jones’, ‘Monks’ e a imbatível ‘Forrest Gump’. Da turma dubstep vem ‘Thinkin about you’ e ‘Sierra Leone’, enquanto as melancólicas ‘Pink Matter’, que tem participação de Andre 3000 e a já citada ‘Bad Religion’, nos levam a lamentar junto com Ocean.

Arrebatador.

PS: Como se não fosse o bastante, Channel Orange também é uma ótima trilha para namorar. ;)

Um poema por dia - 23/2 - Longe

23/2

Longe

Só pode vir da lua
O brilho deste olhar
É luz somente sua
Dispersa pelo ar

Que voe, singela palavra
Que vá e a pegue na cama
Corre por cima da estrada
Vá lhe dizer quem a ama

Ama e lhe manda uma paisagem
Longe, lhe faço uma canção
Que fique bem e tenha boa viagem
Que volte logo pro meu coração.