Encruzilhada

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terça-feira, 23 de abril de 2013

Filmes e Memorabilia 2013 - José e Pilar

69. José e Pilar – 22/04 - TV – repetido
Nunca li nada de José Saramago. E não me perdoo por isso.

Em 2011, me apaixonei não só por Saramago como por sua companheira Pilar del Río. Tudo graças ao doc ‘José e Pilar’, de Miguel Gonçalves Mendes, que tive a oportunidade de assistir no Festival do Rio e rever hoje, no Canal Brasil.

Gigante de um carisma inigualável do alto de seus 83 anos - no início das filmagens, que registram quase três anos do dia a dia do casal ao mesmo tempo em que acompanham o processo de produção do livro ‘A viagem do elefante’ – José Saramago domina, por vezes quase involuntariamente, cada passagem do filme. Pilar não faz por menos e está sempre por perto, como esposa, assessora, uma verdadeira extensão de Saramago, além de uma mulher fortíssima (nunca esqueci suas colocações na entrevista que ela dá a um jornalista, quando defende o uso da palavra ‘presidenta’: “A palavra não existia porque não existia o cargo. Quem me chama de ‘presidente’ é ignorante”).

Contando com uma intimidade adquirida com José e Pilar, Miguel Gonçalves Mendes faz um documentário em cinema direto extremamente pessoal, capturando momentos íntimos da vida do casal, passagens de desconstrução do mito do grande autor literário - que tal a cena (foto ao lado) em que Saramago está concentrado diante do computador em seu escritório, pensando e pensando até que a câmera mostra a tela do pc e vemos que ele está jogando paciência 'para afastar o Alzheimer' - além de belíssimas imagens da ilha de Lanzarote, na Espanha, onde os José e Pilar mora(va)m. Tudo associado a uma linda trilha sonora (com belos fados e a participação da brasileira Adriana Calcanhotto).

Assim, durante duas horas conhecemos um pouco mais sobre esse casal separado por 28 anos e em total sintonia. Não à toa, Saramago dedica quase todos os seus livros à companheira e diz que Pilar impediu que ele morresse. E como se não bastasse ficarmos embasbacados pela vitalidade e lucidez (incentivadas e até possibilitadas pelo trabalho de Pilar) de um homem acima de seus 80 anos, ainda temos a oportunidade de ouvir Saramago disparar uma pérola atrás da outra, destilando um bom humor realista, que alguns poderiam chamar pessimista. O escritor é de uma sinceridade crua e lírica ao mesmo tempo; enxerga a finitude da vida, o absurdo do mundo e os encara com um despretensioso fio de esperança na forma de palavras escritas na língua que ele mesmo considera a mais bonita do mundo: o português.
Não me perdoo por ainda não ter lido nada de Saramago. Mas tenho o que este homem, que se tornou escritor profissional aos 60 anos, afirma não ter mais, em determinado momento do filme: tempo. E intendo aproveitá-lo para conhecer mais este gênio de língua igual a minha.

MEMO: Aqui, de fato, são muitas as cenas memoráveis. Mas entre a reação de Saramago assistindo a ‘Ensaio sobre a cegueira’ ao lado de Fernando Meirelles (também produtor do doc), a sequência em que o português, exausto, e Gabriel García Marquez dormem sentados durante um bate-papo com universitários e muitas outras sequências estupendas, separo o caso de Stefano, que entra em cena perto do fim do filme, durante a noite de autógrafos de ‘A viagem do elefante’, em São Paulo. O sujeito tem diante de si um prêmio Nobel, um dos escritores mais consagrados do mundo e, talvez acima de tudo isso, um senhor de 85 anos, que se dedica a assinar TODOS os livros que lhe são solicitados e chega a se desculpar por conta da impossibilidade de fazer dedicatórias, uma vez que a demanda é muito grande e o tempo é curto. Aí me chega o Stefano, sob os protestos da assessora e manda: ‘Saramago, você pode desenhar um hipopótamo pra mim?’. Inacreditável.

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